Leiam o texto e respondam ao que se pede:
Racismo em tempos modernos
Basta um negro chegar ao
‘lugar do branco’, que ele se transforma em um bicho exótico no zoológico do
preconceito
(Por Leonardo
Dallacqua De Carvalho)
Democracia
racial costuma ser um termo utilizado no Brasil por quem acredita na
inexistência de preconceito de cor. Atualmente, as redes sociais são, por
excelência, uma amostragem da presença dessa crença muito debatida no século
anterior.
Dentro
da lenda da democracia racial, seus adeptos, consciente ou inconscientemente,
reclamam que a ausência de preconceito é justificada pela atmosfera pacífica da
convivência social, sem guerras civis, onde quem diz ter um “amigo negro” é
absolvido automaticamente após qualquer piada racista ou comentário degradante.
E assim foi argumentada por homens como Florestan Fernandes, décadas atrás, ao
responder a muitas das questões postas hoje, mas que aparentemente são
ignoradas pelos paladinos da negação do racismo sob os interesses dos mais
obscuros.
No habitat virtual
emerge um antigo modelo de discurso que, se antes estava reservado a lugares
próprios e passíveis de camuflagens, agora está despido para quem quiser ver.
Basta uma notícia de constatação de preconceito racial, que uma burricada surge
para reafirmar que o racismo é uma ilusão confeccionada por elementos X ou Y.
Isso, é claro, quando não sentenciam os próprios negros por sofrerem racismo. É
como acusar os judeus pelo holocausto ou grupos indígenas pelo seu próprio
extermínio. Mas há quem faça.
Essa
parcela da população foi adestrada, em partes, por subprodutos do pop virtual
que flertam com posições racistas e fascistas. São guiados por jovens eleitos
por vídeos do YouTube e seu arsenal de chavões e senso comum que deságua na
opinião de um coletivo defensor da autoridade desse discurso. Sem muita
afinidade com bibliografias e o mundo acadêmico, tornam-se inteligíveis para
aqueles que necessitam de textos prontos para ruminar em suas páginas pessoais
na pura ânsia de mascarar seus verdadeiros preconceitos.
São
os mesmos que tentam buscar em Zumbi ou na Diáspora Africana, fruto do
emparelhamento da mão de obra escravizada no Brasil durante séculos, a
justificativa tacanha de que “negros negociavam escravizados”. Sendo assim,
tudo bem, obrigado, voltamos para o zero a zero moral. Desconhecem a história,
suas ferramentas de análise e as condições de cada contexto.
Em
suas mastodônticas moralidades, acham que cotas raciais, por exemplo, legitimam
o preconceito. Ignoram a estrutura das relações do pós-Abolição, que fortificou
uma sociedade desigual não apenas socioeconômica, mas pela cor, como
subterfúgio da manutenção das divisões sociais. Divisões que sobrevivem. Como
pouco entendem do passado, pensam que as ações no país devem se resumir à sua
existência. Além da ignorância dos processos históricos, há também o egoísmo
latente.
Não
tão raros, existem indivíduos que atribuem o direito a uma sociedade racial
igualitária a partidarismos. Na alto do analfabetismo político, conferem a
movimentos de esquerda o tema do racismo como pauta da ordem do dia. Como se a
igualdade social pertencesse a grupos, e não ao todo.
Por
fim, no submundo da “vergonha alheia” estão os que dizem sofrer “racismo inverso”.
Que o peso da seleção natural recaia sobre esses sujeitos. Basta um negro
chegar ao “lugar do branco”, que ele se transforma em um bicho exótico no
zoológico do preconceito. Pinçam esse indivíduo do anonimato para justificar a
inexistência de preconceito e desigualdade. Em uma sociedade em que, segundo o
IBGE (2014), mais de 53% se declaram negros ou pardos, as tentativas de
destacar as exceções confirmam o grau de disparidade. Enquanto o acesso
profissional e universitário não representar o cotidiano, qualquer discurso de
meritocracia é vazio.
Enquanto
continuarem a buscar nas exceções o argumento a favor da democracia racial,
prova-se que a sociedade é ainda mais desigual do que se imagina. Não tão
distante, ainda sobrevive a frase de George Bernard Shaw: “Faz-se o negro
passar a vida a engraxar sapatos e depois prova-se a inferioridade moral e
biológica do negro pelo fato de ele ser engraxate”.
**Leonardo Dallacqua de
Carvalho é historiador e pesquisador
a) Qual a
questão tratada pelo autor?
b) Qual a
posição defendida pelo autor, nesse mesmo texto?
c) Cite pelo
menos dois argumentos utilizados pelo autor para defender sua posição.